terça-feira, 1 de setembro de 2009

Os "hômi" da foto

Catei do álbum guardado de painho. Era 1976, 1977, por aí, bem lá.
Estranho ter registro fotográfico dentro do presídio. Principalmente depois da partida de futebol.
Não, não é Carandiru. É a Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, Nordeste, Brasil.
Mais esquisito ainda é os tipo dos hômi. Na fotografia tem árabe do Centro-Oeste do país, presidente das Ligas Camponesas de Pernambuco, poeta, agricultor, estudante, um com a cara do pai do Lenine, outro com cara de doido. E era doido mesmo.

Tinha gente que tinha perpétua, que fugiu, que voltou, que se matou. Tem uns vivos. E bulindo. E batendo um baba. Quando a pressão permite.

Todos eles fazem parte da foto da arte do convite da exposição, e do painel que abre Anistiados:

Da esquerda pra direita:

Os de pé:
1 Fransisco de Assis, Advogado? Recife 2 Aru(apelido) Rio Grande Norte, 3 Alberto Vinícius, Recife 4 Ivanildo Xavier ,Serrinha-PE, 5 Francisco Peixoto, Serrinha-PE 6 Calistrato Cardoso - PB, 7 Operário ,Natal 8 Marcelo Mário Melo, poeta, Recife 9 Emilson Ribeiro, João Pessoa-PB

Os sentados:
1- Moisés Domingos,Natal-RN 2 Júlio Santana, líder Ligas Camponesas, Zona da Mata, Pernambuco, falecido 3 Carlos Alberto Soares, condenado a prisão perpétua (Recife) 4 Luciando Almeida, Natal 5 Arlindo Felipe, sapateiro, Recife 6 Samuel Firmino, Joao Pessoa-PB

Os no chão:
1 Luciano Siqueira, Vereador PCdo B Recife 2 Romarildo ,Natal-RN 3 Alanir Cardoso, presidente PC do B Pernambuco, 4 Bosco Rolemberg, Aracaju, Sergipe 5 Antonio Ricardo Braz , assalariado agrícola , suicidou-se após Anistia 6 Cláudio Ribeiro, ex- marinheiro, Pará 8 Aloisio Valério 9 Francisco Chagas, paraibano, falecido

Foto: Arquivo Pessoal Bosco Rolemberg


terça-feira, 25 de agosto de 2009


Anistiados foi prorrogada.
A exposição fica na Galeria Álvaro Santos até o dia 12 de setembro.


Dá pra passar lá até antes de pegar aquela Atalaia, no sábado de manhã.


Só pra lembrar, a Álvaro Santos fica ali, na praça Olímpio Campos, a mesma da Catedral.

Qualquer coisa é só bater o fio pra lá: 3179 1308.
Foto: Ivve Rodrigues

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Mãos ocultas


Arregotaserena! Um mês sem atualizar, que vergonha.

Não tem quem guente também. Preliminares de abertura de exposição é feito mãe de menino novo.

Inventa tempo, fôlego, peito, coragem pra tudo. Mesmo assim a coisinha pequena pede mais.

Saiu pra rua, ou melhor, pra galeria, no dia 06 de agosto. Berreiro cor de vermelho amor.

Tava todo mundo lá. Os de dentro, que fizeram a expo - Mingau, Adelci, Marcelo, Ivy, Carol

Isabel, Cleomar, Vlad, Maruze, Cauê, Pastor, Nina, Lara, etc e tal.

Avulsos também, Otto e Juci, o clã dos Oliva, Flavinha, Marcão, até Marco Antônio, na barriga de Jana, nascido uma semana depois

Das cem melhores coisas, os bilhetes deixados pelas mãos ocultas, na instalação da grade de barbante

Os que não foram também estavam: Tata, velho Jairo, mestre Zeca, Luci e Luciano, Pastor, seu Galego Marceneiro.

Sexta-feira, o dia seguinte, foi o mais bonito. Roda de violão, vinho e histórias lá em casa.


Foto: Ivve Rodrigues

terça-feira, 21 de julho de 2009

O parto - Parte II (ou Os desencouraçadores)

Foi coisa de história de verão. Rede, sol, mar, balancei a imaginação: "Pai, olha só que legal, a Anistia faz 30 anos este ano, por que não fazemos uma amostra dos quadros que você produziu na Ilha?" "Oh, que beleza, não tem uma coisa mais nova não?". A piada virou provocação. O que é que pode ser acrescentado nessa história de exposição, que aglomera, que diga mais, do que é que eu realmente gosto, o que falta pra aquecer em Aracaju? A palavra.

Juntar Artes Plásticas e Literatura. Agora era isso.

Os desencouraçadores das histórias das telas são nove. Uns viveram a ditadura militar, vibraram com a Anistia, escribas que cantaram as pessoas na sala de jantar, alguns bêbados, tantos equilibristas. Todos trapezistas da poesia.

Outros nem tinham nascido ainda naquele agosto de 1979. Mas já brincaram de sonhar em ser Janis Joplin, Rita Lee, Gil, Elis. Ou ninguém. De preferência.

Uns me chegaram há mais. Cauê me é desde criança, emoção de emocionar. Cleomar me chegou quando eu nem era foca, estudante de Jornalismo da UFS, atiçador de anzóis, babalorixá da crônica sergipana, epahê, meu pai. Lara é coisa de muito mistério, tempos de faculdade, a catei de verdade no cubículo de revisão do Cinform. Tem a bochecha risonha, o juízo sério, todo mundo diz que escreve horrores, quero é mais me assustar.

Mingau é um capítulo à parte. O vi de gorrinho magro. Caneta-mouse da revista Imagine SE. Avenca na grama da WG. Agora é meu vizinho de Vila Buarque, pés do Minhocão. Carrega o olho amolado, a alma afiada. Vive cinema. Tem o mais difícil. É dele toda a identidade visual de Anistiados. E a videoinstalação, a partir de 06 de agosto.

Carol e Maruze me vieram numa oficina de criação literária, ano passado, com o professor Antô-nio Carlos Viana e com a própria Maruze. Carol jáinda Carpineja comigo poesia e uca. Professora Maruze evapora o sentimento do mesmo jeito que eu: no bafo de fogueira junina.

Nina veio no meio disso tudo, nem sei como. Uma amiga já tinha me falado dela, outra reforçado, outra aprovado mesmo. Já via antes, agora e sempre. Desafiei na Aperipê, pra ser uma Anistiada. É uma das mais entusiasmadas.

Vladimir eu vi guri, franzino, cabelo comprido, no corredor do colégio Dinâmico. Já é mestre em literatura de presidiário pela Unb. Quero ver sua palavra crescer ainda mais.

Ronaldson, dizem, é de ótima composição. De poesia limpa. Da pura. Não o conheço. Vou provar no dia da abertura. Da sua palavra. E da de todos os outros.

Desencouraçadores da ANISTIADOS:

Carlos Cauê
Cleomar Brandi
Lara Aguiar
Maria Carolina Barcellos
Maruze Reis
Nina Sampaio
Raphael Borges (Mingau)
Ronaldson Sousa
Vladimir Oliveira

domingo, 5 de julho de 2009

O parto - Parte 1 (ou Dando no couro)

Aquilo, de ir de pro fundo do quintal, me encantava.
Aquilo, de desenhar com uma pontinha incandescente, me misteriava. E tinha nome direito e sério: pirogravura.
Aquilo, de dar no couro, era o que ele fazia durante os quatro anos e nove meses que passou na "Ilha". E que continou a fazer, depois que saiu de lá.

O sair de lá foi batizado como Anistia. A Ilha tem nome, Itamaracá. O presídio: Barreto Campelo, em Pernambuco.

De lá, trouxe silêncio, violão, orvalho de suor. E um monte de tela. Couro esquecido.

Eu, dedo na boca, não lembro como fui parar ali. Aquilo era coisa de muita foice, lenço de camponesa, camisa aberta no peito, Zé Meninos, mato, pilão, olho de peixe morto, bocas vivas. Dava medo.

Couro fede. Descapelar memórias, também.

Aquilo, aquilo agora era meu pai.

E são dez dessas telas que vão estar expostas na Coletiva Anistiados.

Pra desencouraçar histórias.

*Tela: Bosco Rolemberg, 1984 (Acervo Banco do Estado de Sergipe)

terça-feira, 30 de junho de 2009

A tal Balzaquiana

A Anistia faz trinta anos já já, em agosto. E você com isso, né?

Já decorou que era Ampla, Geral e Irrestrita, agora não lhe serve mais pra nada.

Se esqueceu mesmo?

Vou alembrar: Anistia, do grego Amnestia, 'esquecimento'.
De tirar da memória, de perder a lembrança de alguém, falta de atenção ou de interesse, nem sei direito, deu branco, esquece.

A Coletiva Anistiados tá nascendo.

O blogger é um jeito do projeto não ficar apagadinho.

É dia 04 de agosto.

Na Galeria Álvaro Santos.

E o que eu for lembrando, vou aqui anotando.

Pra não esquecer.